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  • Latinamerican Contemporary Design

Uma confusão com a identidade

Tremendo confusão nas redes brasileiras. O SEBRAE Alagoas, publica um aparador inspirado um instrumento de tortura para escravos, como um dos resultados de um trabalho de design com identidade.

Fator Local,

Uso de identidade e seus elementos para criar produtos diferenciados utilizados como conceito e criar produtos inovadores. A técnica não é nova. Desde os anos 50s, designers e arquitetos adotaram elementos locais como insumo criativo. As obras da designer cubano-mexicana Clara Porset,  a partir dos banquinhos tradicionais mexicanos, ou da menos conhecida mas igualmente bem-sucedida Linea Cortijo dos irmãos Marquez, na Colômbia, projetada pelos então muito jovens irmãos a partir dos currais e das estrutura na caçamba dos caminhões são lendárias. Conceitos inspiradores da identidade podem ser encontrados em elementos de ambiente, arquitetura, religiosidade, costumes e até mesmo histórias e contos populares. O assunto não é exclusivo para design,  são intensamente utilizados na música arte e literatura.

O assunto é muito interessante e como técnica é infalível para fazer produtos realmente criativos, pois, quando se faz bem, podem ser achados elementos muito fortes, que em um processo de transposição para outro setor, caso moda ou móveis, dao pé projetos que prestam homenagem à engenhosidade popular ou às tradições de um povo.

O limite é difuso. Ver a famosa cadeira “Favela” dos irmãos Campana decorando um luxuoso castelo barroco europeu cujo conde pagou € 7000, sabendo que é inspirada pela pobreza e a precariedade é muito provocativo e este é precisamente a sua mensagem, mas o limite entre o que é aceitável ou nao e muito difuso e pode dar em confusão, foi o que aconteceu com o excelente designer Marcos Batista.

O proceso e o resultado.

Antes de cair acima do Marcos Batista o designer teoricamente responsavel por fazer de um drama humano um objeto decorativo irrelevante, é necessário entender o contexto de  produto que desenvolveu com os marceneiros:

O Sebrae brasileiro é talvez a maior empresa geradora de trabalho para os designers daquele país, quem esto escreve trabalhou com eles durante anos. O designer é um consultor e suporte em projetos de inovação,  Fazemos com as comunidades processos criativos de identificação a partir de elementos da própria cultura. Geralmente estes temas são escolhidos pela comunidade, que, a partir de histórias e referentes que podem ser arquitetura, artefatos ou, no caso elementos  da cultura negra entre eles um tronco para amarrar escravos, como tema base para criar e produzir uma coleção própria. O designer e foi o caso do Marcos não assina as peças sua função é facilitar os procesos criativos.

 

O contexto histórico:

O Estado da Paraíba, onde Marcos fez seu trabalho, é conhecido por sediar o “Quilombo do Palmares”, o maior território livre composto por escravos fugitivos do Brasil. Este espaço livre foi mantido durante décadas num território de cerca de 600 km2 até ser submetido pelos portugueses após várias décadas de luta, sem nunca ter sido totalmente subjugado. As comunidades da área são, portanto, muito orgulhosas de seu passado e resolveram como um tributo tomá-lo como tema criativo de uma coleçao. O processo pelo qual vários elementos da cultura negra foram tomados como referências, como suas casas, móveis, instrumentos musicais e infelizmente os instrumentos de tortura, ocorreram em 2015 quando 20 empresários  visitaram o local pessoalmente após o qual foram divididos em cinco grupos, para desenvolver seus projetos com o apoio de Marcos.

Aparador: ” tronco de los esclavos”
Um objeto con uma simbología tao negativa nao pode virar decoraccao, dura lección

Assim o conta o designer:

“Esse projeto foi realizado no ano de 2015, e o propósito dos 20 marceneiros era o enaltecimento do principal quilombo do pais, ficamos 1 dia inteiro na serra da barriga onde fica o quilombo para conversar com a comunidade local, registrar toda a simbologia os marceneiros se debruçaram em fatos históricos e cada grupo (foram 5) se utilizou algo escolhido pelo grupo como referência para a materialização de um móvel,  os móveis criados pelos marceneiros não tinha cunho comercial muito menos os nomes dados as peças (que apenas registraram o artefato em questão) e serviram apenas para gerar um catálogo como portfólio do APL como registro interno para o grupo.”

“Todo o trabalho foi pautado para enaltecer a história, a luta e as conquistas do Quilombo dos Palmares, ícone inequívoco da Cultura Negra no Brasil; “

Bons resultados:

Os empolgados marceneiros criaram várias peças inspiradas em instrumentos musicais, artefatos,  heróis do quilombo.. e infelizmente o “tronco dos escravos” que dio origem à discórdia. Como resultado desta ação foram apresentadas algumas luminárias, sofás e outros móveis,  posteriormente expostos com o apoio do Sebrae em eventos como: Casacor, Formobile e vários mais, chegando mesmo a ser convidados para expor em Milão. Os empresarios ganharam muita notoriedade e promoção gratuita sem que as peças, necessariamente entrasem em produção. O exercício foi fundamental para fazer contatos e negócios com construtores locais.

 

  

Obirimbao inspira uma luminaria.

Mais caiú nas redes:

O problema é que os resultados vissiveis de um processo criativo dessas características são produtos e estes, por sua vez, possuem outros valores simbólicos. Não parece correto ter como objeto decorativo em uma sala de jantar, um bufê inspirado no sofrimento e torná-lo uma decoração superficial. Um dos posts nas redes sociais explica o problema

“”Bixo, eu não tô acreditando nisso. A APL de Móveis de Maceió e entorno, lançou uma linha chamada Quilombo dos Palmares que tem uma mesa com o nome ‘buffet tronco dos escravos’. Galera só pode tá de brincadeira”

Pois não era, e o assunto chegou a jornais nacionais como O Globo e outras mídias e, claro, explodiu em redes sociais, que são o território privilegiado do bullying e a informação fora de contexto. O designer foi acusado de racismo, entre outras coisas.

A professora de História Ana Lucia Araujo, professora do U de Howard em Washington, define  bem a percepção:

Para o consumidor afrodescendente cujos ancestros foram escravizados no Brasil um móvel imitando um instrumento de tortura, representa a ideia da submissão e evoca diretamente o sofrimiento ao qual seus ancestros foram submetidos, só um designer branco, sem nemhuma empatía, pode conceber tal peça sem considerar esta dimensão crucial.  Que o consumidor pode experimentar algum prazer estético ao ter em sua sala um movel que evoca diretamente o sofrimento físico y psicológico infringido a milhões de africanos escravizados e seus descendentes?

A carga é pesada, porque ainda está presente. O simbolismo negativo da escravidão e do sofrimento não é algo para se inspirar, pelo menos não para  decorar a casa de uma família elegante. O simbolismo, apesar do  bem-intencionado designer que não pretendeu, ofende. O uso de elementos simbólicos e conceituais deve ser perfeitamente calculado.  Dura lição para Marcos e um aprendizado para todos os designers que trabalhamos em processos de design participativo a partir de “fator” local ”

 

fontes: O Globo, 

Gazeta do Povo

Racismo ambiental

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